O projeto as built é um documento técnico que registra as características reais de uma construção após sua conclusão, diferente do projeto original. Ele mapeia todas as modificações, adaptações e detalhes construtivos que ocorreram durante a obra, servindo como um retrato fiel do imóvel tal como foi efetivamente edificado. Esse levantamento é fundamental para proprietários que enfrentam problemas de regularização junto aos órgãos públicos ou que precisam comprovar a conformidade de suas edificações.
A importância do projeto as built vai além da documentação: ele é frequentemente exigido para obter habite-se, atualizar registros imobiliários e resolver discrepâncias entre o que foi construído e o que foi aprovado originalmente. Muitas obras sofrem alterações durante a execução por questões técnicas, financeiras ou de projeto, e essas mudanças precisam ser formalizadas e documentadas de forma profissional para que o imóvel tenha sua situação regularizada perante a prefeitura e cartório.
Empresas especializadas em engenharia predial realizam esse levantamento técnico com precisão, elaborando laudos que descrevem fielmente cada aspecto da construção. Esse trabalho profissional garante que a regularização do imóvel ocorra de forma segura e legal, evitando futuros problemas na venda, financiamento ou transferência da propriedade.
O que é o projeto As Built?
Definição e origem do termo As Built na construção civil
O termo As Built vem do inglês e significa literalmente "como construído". Na construção civil, ele designa o conjunto de documentos técnicos — plantas, cortes, fachadas, esquemas de instalações — que representam fielmente o imóvel do jeito que ele foi efetivamente executado, e não como estava previsto no projeto original aprovado. A expressão é amplamente adotada no Brasil, especialmente em obras de médio e grande porte, mas sua aplicação alcança também residências unifamiliares que precisam de regularização.
A prática surgiu da necessidade de registrar as inevitáveis alterações que ocorrem durante qualquer obra: mudanças de layout, ajustes de materiais, deslocamentos de tubulações, adaptações estruturais. Sem esse registro, o histórico técnico do edifício fica incompleto, comprometendo manutenções futuras e a própria legalidade da edificação.
Diferença entre o projeto original e o projeto As Built
O projeto original — também chamado de projeto executivo ou projeto aprovado — é o documento que descreve a intenção da obra antes de ela começar. Ele serve de base para a obtenção do alvará de construção e orienta a equipe durante a execução. Já o projeto As Built é elaborado após a conclusão da obra, documentando tudo que foi efetivamente construído, incluindo todas as modificações realizadas ao longo do processo.
As diferenças entre os dois podem ser sutis — um deslocamento de parede de 10 cm, uma mudança no percurso de uma tubulação — ou bastante significativas, como a supressão de um pavimento ou a adição de uma área de serviço não prevista. Em qualquer caso, o As Built prevalece como registro oficial do que existe fisicamente no terreno.
Para que serve o projeto As Built?
Registro fiel do que foi efetivamente construído
A função primária do As Built é criar uma memória técnica precisa da edificação. Esse registro é indispensável para qualquer profissional que precise intervir no imóvel no futuro: saber onde passam as tubulações de água e esgoto evita quebras desnecessárias; conhecer a posição exata dos pilares e vigas previne erros graves em reformas; identificar o traçado elétrico reduz riscos de choque e curto-circuito. Sem o As Built, cada intervenção começa praticamente do zero, com inspeções custosas e riscos elevados.
Base documental para manutenção, reformas e ampliações futuras
Condomínios residenciais e comerciais que mantêm o As Built atualizado conseguem planejar manutenções preventivas com muito mais eficiência. Quando surge a necessidade de uma reforma ou ampliação, o projeto já existente serve de ponto de partida para o novo profissional contratado, reduzindo o tempo de levantamento e o custo total do serviço. Em edificações mais antigas, a ausência desse documento frequentemente obriga a demolições exploratórias para localizar instalações ocultas.
Instrumento essencial para a regularização do imóvel junto aos órgãos competentes
Do ponto de vista legal, o As Built é o documento que permite comprovar à prefeitura e ao cartório de registro de imóveis que a construção existente corresponde — ou pode ser adequada — ao que a legislação municipal permite. Sem ele, a regularização do imóvel fica inviabilizada, bloqueando a obtenção do Habite-se, a averbação da construção e, consequentemente, a plena regularidade jurídica da propriedade.
Tipos de projeto As Built
As Built arquitetônico: plantas, cortes e fachadas
O As Built arquitetônico é o mais conhecido e, geralmente, o primeiro exigido pelos órgãos municipais. Ele contempla as plantas baixas de todos os pavimentos, os cortes transversais e longitudinais e as fachadas externas, todos desenhados com as dimensões reais medidas no local. É esse documento que demonstra a área construída total, o número de cômodos, os recuos e a taxa de ocupação do terreno.
As Built estrutural: fundações, pilares e lajes
O As Built estrutural registra o sistema de fundação utilizado (sapatas, radier, estacas), a posição e seção dos pilares, vigas e lajes, além das armaduras empregadas quando há concreto armado. Esse documento é especialmente importante em obras onde houve mudanças no projeto estrutural durante a execução — situação comum em construções populares e em ampliações informais.
As Built de instalações hidrossanitárias
Representa o traçado real das redes de água fria, água quente, esgoto sanitário e águas pluviais. Inclui a localização de reservatórios, bombas, caixas de inspeção e pontos de consumo. Em edifícios com múltiplos pavimentos, esse levantamento é crítico para identificar prumadas e evitar interferências em reformas.
As Built de instalações elétricas e de telecomunicações
Documenta o traçado dos circuitos elétricos, a posição do quadro de distribuição, a capacidade dos disjuntores, além das redes de dados, telefonia, CFTV e automação. Com a crescente adoção de tecnologias de automação residencial e comercial, manter esse registro atualizado tornou-se ainda mais relevante para a segurança e a eficiência energética dos imóveis.
Como o projeto As Built ajuda na regularização do imóvel
Relação entre o As Built e a obtenção do Habite-se
O Habite-se é o documento emitido pela prefeitura que atesta que a construção foi concluída de acordo com o projeto aprovado e está apta para habitação ou uso. Para obtê-lo, a prefeitura precisa verificar se o que foi construído corresponde ao que foi autorizado. O As Built é exatamente o instrumento que faz essa demonstração: ele apresenta o imóvel como ele realmente está, permitindo a comparação com o projeto aprovado e a identificação de eventuais divergências que precisam ser regularizadas.
Como o As Built comprova a conformidade da obra com a legislação municipal
Cada município possui seu código de obras e lei de zoneamento, que estabelecem parâmetros como taxa de ocupação, coeficiente de aproveitamento, recuos mínimos e gabarito máximo. O As Built permite que o fiscal de obras ou o próprio profissional responsável verifique se a edificação respeita esses parâmetros. Quando há divergências, o documento também serve de base para calcular as adequações necessárias ou para instruir um processo de regularização por legislação específica, como leis de anistia ou regularização fundiária.
Uso do As Built na regularização de obras já concluídas e construções sem alvará
Muitos imóveis no Brasil foram construídos ou ampliados sem projeto aprovado ou sem alvará de construção. É possível regularizar uma construção executada sem projeto aprovado, mas o caminho passa obrigatoriamente pela elaboração do As Built. Esse documento substitui o projeto original inexistente e serve de base para o pedido de aprovação retroativa junto à prefeitura. Sem ele, o processo de regularização simplesmente não tem como avançar, pois os órgãos competentes não têm como avaliar o que existe no terreno.
Impacto do As Built no registro do imóvel em cartório e na averbação da construção
Após a obtenção do Habite-se, o próximo passo é averbar a construção na matrícula do imóvel no cartório de registro de imóveis. A averbação é o ato que oficializa a existência da edificação para fins jurídicos e fiscais. Sem ela, o imóvel pode constar na matrícula apenas como terreno, gerando discrepâncias que afetam diretamente o valor de mercado, a possibilidade de financiamento e a transmissão por herança. O As Built, ao embasar o Habite-se, é o ponto de partida de toda essa cadeia documental.
Como elaborar um projeto As Built: passo a passo
Levantamento As Built: visita técnica e medição in loco
O processo começa com uma visita técnica ao imóvel, realizada por engenheiro ou arquiteto habilitado. Nessa etapa, o profissional mede todos os ambientes, verifica espessuras de paredes, identifica o traçado de instalações visíveis e registra fotograficamente cada elemento relevante. Em edificações mais complexas, essa fase pode demandar vários dias de trabalho e o acesso a todos os pavimentos, incluindo subsolos e coberturas.
Ferramentas e tecnologias utilizadas: topografia, laser scanner e drones
Para imóveis de grande porte ou com geometria complexa, o levantamento manual pode ser complementado por tecnologias mais precisas. O laser scanner 3D captura nuvens de pontos que reconstituem digitalmente o ambiente com milímetros de precisão. O levantamento topográfico é indispensável para registrar implantação, cotas de nível e limites do terreno. Os drones são utilizados para levantamentos de coberturas, fachadas e grandes áreas, gerando ortofotos e modelos tridimensionais que agilizam a elaboração dos desenhos técnicos.
Elaboração e revisão dos desenhos técnicos em CAD ou BIM
Com os dados do levantamento em mãos, o profissional elabora os desenhos técnicos em software CAD (como AutoCAD) ou em plataformas BIM (como Revit ou ArchiCAD). O BIM oferece a vantagem de integrar todas as disciplinas — arquitetura, estrutura e instalações — em um único modelo tridimensional, facilitando a detecção de interferências e a revisão dos documentos. Após a elaboração, os desenhos passam por revisão técnica antes de serem assinados e carimbados com o número de registro profissional responsável.
Quem pode assinar o projeto As Built: responsabilidade técnica do arquiteto ou engenheiro
O As Built deve ser assinado por profissional legalmente habilitado: arquiteto e urbanista registrado no CAU para projetos arquitetônicos, ou engenheiro civil registrado no CREA para projetos estruturais e de instalações. A assinatura vem acompanhada da emissão da ART (Anotação de Responsabilidade Técnica) ou RRT (Registro de Responsabilidade Técnica), documentos que conferem validade legal ao projeto e responsabilizam tecnicamente o profissional pela veracidade das informações.
Documentos necessários para regularização do imóvel com o As Built
Lista de documentos exigidos pela prefeitura para aprovação do As Built
A documentação exigida varia conforme o município, mas em geral inclui:
- Requerimento de aprovação de projeto (formulário próprio da prefeitura)
- Projeto As Built assinado pelo responsável técnico (arquitetônico e, quando exigido, complementares)
- ART ou RRT do profissional responsável
- Documentos do proprietário (RG, CPF ou CNPJ)
- Matrícula atualizada do imóvel
- Certidão de uso e ocupação do solo ou certidão de zoneamento
- Comprovante de pagamento das taxas municipais
- Memorial descritivo da construção
Em alguns municípios, a lista de documentos para o Habite-se pode incluir laudos de instalações elétricas, AVCB (Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros) e certificados de conformidade de elevadores, dependendo do tipo e porte da edificação.
ART ou RRT: como emitir a anotação de responsabilidade técnica
A ART é emitida pelo engenheiro no sistema do CREA do estado onde a obra está localizada. A RRT é emitida pelo arquiteto no portal do CAU/BR. Ambas devem descrever o serviço prestado (elaboração de projeto As Built), identificar o imóvel e o contratante, e ser recolhidas com o pagamento da taxa correspondente. Esses documentos são obrigatórios para dar validade legal ao projeto e são exigidos tanto pela prefeitura quanto pelo cartório de registro de imóveis.
Habite-se Simplificado: modalidade para residências unifamiliares de menor porte
Muitos municípios brasileiros oferecem o Habite-se Simplificado para residências unifamiliares com área construída abaixo de determinado limite (que varia conforme a legislação local, geralmente entre 70 m² e 200 m²). Nessa modalidade, o processo é mais ágil, a documentação exigida é reduzida e, em alguns casos, a vistoria presencial é dispensada. O As Built continua sendo exigido, mas o trâmite é consideravelmente mais rápido do que o processo padrão.
Quanto custa e quanto tempo leva um projeto As Built?
Fatores que influenciam o preço: tamanho, complexidade e localização do imóvel
O custo do projeto As Built é influenciado por:
- Área total construída: projetos maiores demandam mais horas de levantamento e desenho
- Número de disciplinas: um As Built completo (arquitetônico + estrutural + instalações) custa mais do que apenas o arquitetônico
- Complexidade da edificação: geometrias irregulares, múltiplos pavimentos e sistemas prediais sofisticados elevam o custo
- Tecnologia utilizada: levantamentos com laser scanner ou drone têm custo adicional, mas reduzem o prazo e aumentam a precisão
- Localização: o valor do mercado profissional varia significativamente entre capitais, cidades do interior e regiões do país
Para uma residência unifamiliar simples de até 150 m², o As Built arquitetônico pode custar entre R$ 2.000 e R$ 6.000, a depender da região. Edificações comerciais e condomínios verticais demandam orçamentos individualizados.
Prazo médio para elaboração e aprovação junto à prefeitura
O levantamento e a elaboração do projeto As Built de uma residência simples costumam levar de 15 a 30 dias úteis. A aprovação junto à prefeitura varia muito: municípios com sistemas digitais e processos ágeis podem aprovar em 30 a 60 dias, enquanto prefeituras com maior demanda ou processos burocráticos podem levar de 3 a 12 meses. O prazo total para averbar a construção, incluindo a etapa cartorária após a aprovação municipal, deve ser considerado no planejamento do proprietário.
Consequências de não ter o projeto As Built e o imóvel irregular
Dificuldades na venda, financiamento e inventário do imóvel
Um imóvel sem As Built aprovado e sem Habite-se enfrenta sérias restrições no mercado. Bancos e financeiras exigem a regularidade documental completa para liberar crédito imobiliário — financiar um imóvel sem Habite-se é praticamente inviável pelas linhas convencionais. Na venda, a irregularidade precisa ser declarada ao comprador e tende a reduzir substancialmente o valor de negociação. Em processos de inventário, imóveis irregulares geram disputas e custos adicionais, pois o cartório exige a regularização antes da transferência formal da propriedade.
Situações como metragem da matrícula diferente da área real construída são extremamente comuns em imóveis sem As Built e sem averbação atualizada. Essa discrepância cria insegurança jurídica para todas as partes envolvidas em qualquer transação.
Riscos de multas, embargos e outras penalidades
Do ponto de vista administrativo, construções irregulares estão sujeitas a autuações pela fiscalização municipal, que podem resultar em multas progressivas, embargo da obra (mesmo que já concluída) e até ordem de demolição de partes construídas em desacordo com a legislação. Além disso, a irregularidade pode impedir a obtenção de alvarás para atividades comerciais, bloquear o IPTU com o enquadramento correto e gerar passivos fiscais retroativos quando a área construída real é maior do que a registrada.
Imóveis antigos não estão isentos desses riscos. Imóveis antigos também precisam ser regularizados, e o As Built é, na maioria dos casos, o ponto de partida obrigatório para iniciar esse processo. Quanto mais tempo o proprietário adia a regularização, maiores tendem a ser os custos e as complicações envolvidas — seja pela deterioração dos documentos disponíveis, seja pela evolução da legislação urbanística que pode tornar a situação ainda mais difícil de enquadrar.
Manter o imóvel regular não é apenas uma obrigação legal: é uma forma de proteger o patrimônio, facilitar negociações futuras e garantir que a edificação possa ser mantida, reformada e transmitida com segurança jurídica plena.






















